Quinta-feira, Novembro 27, 2008

Estória de uma madrugada gelada

Uma fina camada branca cobria o chão relvado, flocos de neve teimavam em cair lentamente aparentemente sem origem certa. Tudo se recobria de branco e os seus cabelos negros caindo livremente sobre as costas sobressaiam na paisagem, perdidos num banco no meio de um parque.
Tudo à sua volta se mantinha silencioso, o frio impedia as pessoas de sair de casa onde se podiam aquecer à lareira ou andar de pijama e robe o dia todo. Mas ela mantinha-se quieta, sentada sozinha, de mãos enluvadas enfiadas nos bolsos do casaco polar.
Os olhos cinzentos fixavam, sem expressividade, o infinito na direcção do gelo que cobria o lago do jardim. Lembrava-se do passado. Dos momentos perdidos e das memórias que teimam em não deixar esquecer.
A sua história recentemente sofrera uma reviravolta, deixara tudo para trás e decidira começar de novo, sem nada ou ninguém. Mas a cidade era a mesma e as pessoas também. Os amigos e família continuavam lá, mas ela mudara.
Até que ponto mudara? A dúvida pairava no ar gélido da madrugada. De certa forma, nem sequer mudara, era exactamente a mesma pessoa e continuava a sê-lo com os outros, esse passado recentemente esquecido nem a afectara tremendamente, fora apenas uma curva no caminho.
Mas uma nova ideia surgira. Ela olhou para o lugar vago ao seu lado. Se por um lado desejava ter ali alguém com quem partilhar aquele momento, por outro queria ficar sozinha. Todas as suas experiências apenas demonstraram que não era a pessoa indicada para estar com alguém, simplesmente o hábito da solidão era demasiado forte. Ela queria ir mais longe sem poder, sem conseguir, sem se deixar o suficiente, sem confiar o suficiente, sem ceder o suficiente.
Um ligeiro sorriso aflorou-se-lhe na face. A ironia era evidente, a falta de cedência não seria um sinal que realmente nunca tinha estado com alguém com toda a sua alma? Talvez fosse o sinal de que nunca se entregara verdadeiramente, porque nunca gostara verdadeiramente?
Mas então porquê continuar? Não valia a pena fazer o momento perdurar. O caminho era acabar com tudo. E agora o grande medo é recomeçar.
Sem respostas, a única certeza é aquele banco madrugador que a acolhe, o vento frio na cara que a ajuda pensar e a fuga às pessoas que a deixa poder reflectir ou simplesmente estar inconsciente do mundo que a rodeia.
O sol sobe no horizonte lentamente e as horas de solidão escoam-se. Aproxima-se o fatídico momento de voltar para o meio de conversas desconhecidas, de piadas sem nexo por não se ter ouvido o inicio, de pessoas que continuaram a vida sem as dúvidas dela.
Está na hora de voltar. Mas ela não se levanta e aproveita os últimos momentos do dia em sossego. Uma lágrima escorre do olho. Ela limpa-a rapidamente à manga do casaco e levanta-se.
Chegou o momento de voltar à vida real.

3 Comentários:

Blogger manuel disse...

I've been there.

conheço esse banco.

30 de Novembro de 2008 18:03  
Blogger Susana disse...

ja li..bjinh gand joaninha

e olha..tou aki!!! ta.nos a fazer falta uma dakelas reuniões nas escadas=)

3 de Dezembro de 2008 01:00  
Blogger Beatriz disse...

Estar inconsciente do mundo... Tenho tentado encontrar uma expressao que descreva o estado que busco tantas vezes, e encontro.o agora, por acaso, num blogue que nem sei de quem e.

Mas seja de quem for, seja teu, Joana, obrigada!


Adrei este texto!

6 de Janeiro de 2009 01:45  

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