Luto
O olhar enevoado observava o tecto sem reacção, todo o corpo se mantinha imóvel, a face inexpressiva expressava a incógnita do último momento, do último sentimento, do último temor.
E os outros observavam. Um toque de uma mão. Um aperto como que se alguém quisesse voltar a dar energia aos músculos hirtos. Uma lágrima sobre a pele fria imaculadamente limpa. Um olhar desviado e outro interrogativo.
Sentava-me na cadeira fria daquela sala gelada onde passava a negra comitiva que fazia questão do último adeus, do último olhar, do último toque. Muitos sem compreender, sem saber, sem querer saber mais do que sabem. Muitos fugindo do momento para o qual, sem serem convidados, decidiram, por vontade própria, comparecer. Seria igual, uma sala cheia de gente, uma sala vazia, uma sala com poucas pessoas. Já não importa. Mas ninguém nega o carinho que os outros podem sentir por nós mesmo depois de os deixarmos.
A multidão vai passando, murmurando palavras à família. Os amigos choram, os conhecidos consolam-nos. Nenhum quer aceitar e todos se rendem à evidência.
A cadeira continua fria. É desconfortável, mas prefiro manter-me quieta a observar, enquanto espero pela minha vez. Ninguém olha para mim, escondida num canto abandonado, invisível.
As velas arderam quase até ao fim, anunciando aos poucos ainda presentes que o dia finava e chegava a hora de regressar ao calor no exterior da sala de gelo. Era um regresso esperado por todos, mesmo que temido por alguns.
Sozinha na sala, obrigo-me, finalmente, a levantar e a aproximar-me dos olhos enevoados e da face inexpressiva. Pela primeira vez a imagem é real e não a reflectida no rosto dos outros que a observavam. Pela primeira vez soube que chegara a altura de dizer adeus.
A minha mão fria estendeu-se para a face imóvel, mas retraiu-se antes do derradeiro toque. Tinha chegado ao fim. Era altura de partir.
Ao meu lado uma figura de negro aproximava-se, sem idade, sem sexo, sem vida, sem face que possa alguma vez vir a ser recordada, ela esperava por mim. Sentara-se ao meu lado na cadeira fria. Caminhara ao meu lado. E agora estendia-me a mão.
Olhei uma última vez os meus próprios olhos. Murmurei um último adeus.
E acompanhada anjo negro deixei a sala fria. Para sempre.
E os outros observavam. Um toque de uma mão. Um aperto como que se alguém quisesse voltar a dar energia aos músculos hirtos. Uma lágrima sobre a pele fria imaculadamente limpa. Um olhar desviado e outro interrogativo.
Sentava-me na cadeira fria daquela sala gelada onde passava a negra comitiva que fazia questão do último adeus, do último olhar, do último toque. Muitos sem compreender, sem saber, sem querer saber mais do que sabem. Muitos fugindo do momento para o qual, sem serem convidados, decidiram, por vontade própria, comparecer. Seria igual, uma sala cheia de gente, uma sala vazia, uma sala com poucas pessoas. Já não importa. Mas ninguém nega o carinho que os outros podem sentir por nós mesmo depois de os deixarmos.
A multidão vai passando, murmurando palavras à família. Os amigos choram, os conhecidos consolam-nos. Nenhum quer aceitar e todos se rendem à evidência.
A cadeira continua fria. É desconfortável, mas prefiro manter-me quieta a observar, enquanto espero pela minha vez. Ninguém olha para mim, escondida num canto abandonado, invisível.
As velas arderam quase até ao fim, anunciando aos poucos ainda presentes que o dia finava e chegava a hora de regressar ao calor no exterior da sala de gelo. Era um regresso esperado por todos, mesmo que temido por alguns.
Sozinha na sala, obrigo-me, finalmente, a levantar e a aproximar-me dos olhos enevoados e da face inexpressiva. Pela primeira vez a imagem é real e não a reflectida no rosto dos outros que a observavam. Pela primeira vez soube que chegara a altura de dizer adeus.
A minha mão fria estendeu-se para a face imóvel, mas retraiu-se antes do derradeiro toque. Tinha chegado ao fim. Era altura de partir.
Ao meu lado uma figura de negro aproximava-se, sem idade, sem sexo, sem vida, sem face que possa alguma vez vir a ser recordada, ela esperava por mim. Sentara-se ao meu lado na cadeira fria. Caminhara ao meu lado. E agora estendia-me a mão.
Olhei uma última vez os meus próprios olhos. Murmurei um último adeus.
E acompanhada anjo negro deixei a sala fria. Para sempre.


2 Comentários:
humidade fria e pesada.
A partida de um local em que nos sentimos desconfortáveis pode significar que vamos entrar no nosso terreno, no nosso Mundo! Não é necessariamente uma coisa má...
PS: deixei-te um desafio no meu blog =P
Beijinhooss***
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