Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

I

As águas do lago estavam calmas, nenhuma ondulação as perturbava e na superfície o rosto de uma rapariga reflectia-se como num espelho. Olhos secos de lágrimas que não existiam mais, uma expressão dura, de sorriso forçado. Muito tempo se passou desde a última vez em que se lembrava realizada e feliz, quase parecia um sonho, esse tempo distante vivido noutro lugar.
Aqui tudo é mais insípido, mas também é mais certo. Não podem existir surpresas que mudem toda uma vida sem regresso possível pois, aqui tudo exige uma explicação concreta e concretizável nas mentes que o exigiram.
Agora, este é o único refúgio seguro. Os traços do seu rosto parecem mais marcados, mais preocupados e quanta razão têm para se terem modificado desta forma. Numa só voz e num só pensamento todos se haviam virado contra a menina de olhos de amêndoa, todos sem excepção. Os seus olhares acusadores trespassaram a sua inocência e impediram-na de explicar o que nem ela própria compreendera.
Os seus olhares, o seu desprezo, todo o burburinho que se faria nas suas costas era impossível de suportar. Principalmente das pessoas em que mais confiava.
Se houvesse ainda uma lágrima naqueles olhos, teria ali sido derramada , perturbando a calmaria do lago. Mas ela já não era nada e não tinha nada. Estava isolada de todos os que a haviam conhecido naquele outro reino de sonhos.
Nesse pensamento tão infeliz quanto era de resignado, uma voz conhecida chamou por ela.
Ele estava mesmo atrás de si, de braço ligeiramente estendido para ela sem se atrever a tocar-lhe. Os olhos dele pareciam lacrimejar com a felicidade de encontrar um tesouro há muito perdido. Nada nele a poderia fazer lembrar de todo o ressentimento que todos eles lhe haviam demonstrado, mas ela não podia acreditar, não podia ter esperança.
Tudo acabara. O fim acontecera. Ela morrera para todo aquele mundo e voltara para o outro mundo que a vira crescer. Os outros não a tinham ouvido, não queriam acreditar nela e agora ele, logo ele, voltava a encontrá-la e dizia-lhe que haviam sido todos enganados, mas não por ela.
Mas era tarde demais para voltar. Todo o ressentimento, todos os olhares mataram a menina de olhos de amêndoa que eles haviam conhecido. Ela era uma sombra que vivia e sobrevivia e não voltaria atrás no tempo nem poderia voltar para os que a tinham feito sofrer.
A mão dele finalmente ganhou coragem e tocou-lhe na face. Os olhos dela fecharam-se apreciando a lembrança daquele toque na sua outra vida, mas passado uns instantes afastou-se e os nos seus olhos ele pode ver o quanto ela sofrera e o quanto iria sofrer por ele e por todos os outros.
E ele percebeu que para algo mudar não bastaria o seu reencontro.

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial