Domingo, Março 29, 2009

Decisões em tempos de espera

Os seus dedos batiam um de cada vez no tablié numa sinfonia ritmada, coordenada, constante e repetitiva até se tornar demasiado irritante e ele precisar de encontrar qualquer outra coisa para fazer com as mãos.
Enquanto se decidia, olhou pela milésima décima quarta vez para a frente, mas nada na paisagem havia mudado para além da posição do sol: a mesma fila interminável de carros se estendia à sua frente até se perder de vista. Estava completamente encurralado no trânsito e farto de ouvir as mesmas vozes dos mesmos locutores de rádio de sempre a dizerem quão caótica estava aquela estrada devido a um grave acidente.
"Vários carros em mau estado, várias pessoas feridas em número indefinido, não tendo ainda sido confirmada qualquer morte" diziam e repetiam as vozinhas.
Preso entre inúmeros carros nada podia fazer além de esperar. E esperar tornou-se nesse momento uma realidade, era uma acção demasiado passiva, demasiado quieta e inactiva. Esperar era algo inaceitável para quem sofrera aquele acidente e necessitava de ajuda e, no entanto, ali estava ele a resmungar por ter de esperar.
Até àquele momento nada se comparara ao impacto da ideia que de repente lhe surgiu na cabeça. E se fosse ele uma das vitimas daquele acidente?
(Pergunta repetida por todos quando ou pensamos ou passamos ou temos a informação de um qualquer acidente.)
Mas imediatamente a seguir deste pensamente ele apenas se lembrou dela, a rapariga de olhos de amendoa e lábios sorridentes. Era a sua situação não resolvida que o preocupava, eram os seus pensamentos e sentimentos baralhados que o assustavam, porque muito embora não devesse nem pudesse gostar dela, não conseguir afirmar ou negar os sentimentos. Não sabia se gostava mesmo dela ou se seria apenas uma amizade que poderia vir a ser muito forte.
E ele não queria estragar esse futuro com ela.
As suas conversas já tinham sido longas e curtas, reveladoras e de pura parvoice, já tinham tido um pouco de tudo, mas ele ainda não sabia o que sentia e tinha medo de saber.
E como não sabia, não podia deixar-se levar por uma falsa intuição. Além de arruinar toda a amizade, seria uma sentença na vida dele, seria como quebrar um fio que apenas há pouco tempo renascera e começara a recuperar.
Era perigoso gostar. Ele não poderia deixar que isso acontecesse, teria de decidir definitivamente pelo não e deixar de dar importância às falsas mensagens que lhe levantavam a dúvida. Era necessário deixar de pensar no assunto, deixar de tentar entender sinais que não o são, deixar de ver o que não existe.
E tomando esta decisão viu o carro da frente a andar um pouco. Ligou o carro e avançou também para o seu lugar na fila de trânsito.
O medo do acidente estava já esquecido na sua cabeça, pelo menos por enquanto. Chegara à conclusão que precisava de viver e não de pensar no que não aconteceu nem no que poderia eventualmente acontecer mediante uma enorme quantidade de "se's".
Neste pensamento e novamente farto do barulho dos seus dedos no tablié ligou o rádio esperando poder ouvir apenas música durante alguns minutos sem qualquer amostra de anúncios irritantes. Pelo menos isso se demosntrou possível e realmente real.

"Sou o tempo que não passa quando a saudade me abraça..." (Todas as ruas do amor - Flor de Lis)

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